O aumento nos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial entre instituições de saúde em 2026 revelou um desafio estrutural significativo no setor: a discrepância entre os gastos necessários para manter a assistência e o momento em que os hospitais realmente recebem pelos serviços prestados. Esse fenômeno afeta uma variedade de instituições, desde Santas Casas até grandes redes privadas, colocando a sustentabilidade financeira da prestação de serviços médicos em evidência.
A tendência se intensificou neste ano. Em fevereiro, o Tribunal de Justiça de São Paulo aprovou o plano de recuperação judicial da Santa Casa de Araçatuba, que estabelece um prazo de até 20 anos para o pagamento da dívida reestruturada, sem prejudicar o atendimento em uma área que abrange 40 municípios. No Rio Grande do Sul, o Hospital Saúde, localizado em Caxias do Sul, também solicitou recuperação judicial nesse mesmo período, pressionado principalmente por dívidas com o governo federal. Por outro lado, grandes redes privadas optaram pela recuperação extrajudicial para renegociar suas obrigações financeiras — um processo distinto que não deve ser confundido com as situações enfrentadas por hospitais sob recuperação judicial.
Descompasso financeiro persistente
Segundo Rodrigo Santos Perego, advogado sócio na SPNC Advogados (Santos Perego & Nunes da Cunha), a entrada das organizações de saúde em processos de recuperação não pode ser interpretada apenas como resultado de má gestão financeira. O setor apresenta características únicas, com despesas elevadas e um fluxo financeiro vulnerável aos prazos de recebimento.
“As instituições de saúde frequentemente chegam à recuperação judicial após uma série de fatores que pressionam seu fluxo de caixa. Elas devem cobrir constantemente gastos com salários, medicamentos, insumos e outros custos operacionais, enquanto uma parte considerável das receitas está sujeita a longos prazos para recebimento. Quando essa desproporção persiste, as organizações começam a perder capacidade para cumprir suas obrigações financeiras, resultando em um endividamento estrutural”, explica.
Essa situação se torna ainda mais crítica quando os valores a receber têm atrasos ou são objeto de glosas e inadimplência, gerando um efeito dominó que afeta toda a cadeia produtiva — desde fornecedores de medicamentos até as equipes envolvidas.
A espiral do crédito
Perego destaca que o principal obstáculo reside na desconexão entre os desembolsos necessários para manter os serviços e os recebimentos pelos atendimentos realizados.
“O verdadeiro entrave está no fluxo financeiro. Os hospitais não podem simplesmente interromper a aquisição de medicamentos ou deixar de pagar seus profissionais porque precisam garantir a continuidade do atendimento. Contudo, quando as receitas não acompanham as despesas, as instituições começam a recorrer ao crédito para manter suas operações. O que parece ser uma solução imediata pode rapidamente se transformar em uma espiral de endividamento, especialmente em tempos de juros altos”, alerta.
A natureza essencial do serviço
Diferentemente de outros setores econômicos, os hospitais oferecem serviços essenciais. Uma crise financeira nesse contexto vai além dos muros da instituição e afeta pacientes, funcionários, fornecedores e médicos — tornando o processo de recuperação dessas organizações mais complexo do que o enfrentado por empresas comuns.
Recuperação judicial x falência
Perego enfatiza que esse mecanismo não implica no encerramento das atividades da instituição.
“É crucial entender a recuperação judicial como uma ferramenta para reestruturação e não como sinônimo de falência ou fechamento. No caso das organizações de saúde, essa distinção é ainda mais relevante devido à cadeia inteira que depende da continuidade dos serviços oferecidos. O desafio jurídico e financeiro consiste em criar uma solução que permita reorganizar as dívidas sem comprometer a assistência médica, preservando empregos e fornecedores e garantindo atendimento aos pacientes”, conclui.
Para gestores do setor saúde, os casos recentes demonstram que a pressão financeira atinge diferentes tipos de instituições. Tanto hospitais privados quanto Santas Casas e grandes grupos enfrentam desafios semelhantes: aumento nos custos operacionais, desalinhamento no ciclo de recebimento e acúmulo crescente das dívidas. Além disso, é essencial melhorar a gestão como parte crucial dessa transformação. No entanto, isso por si só não assegura a sobrevivência; avaliar a saúde financeira das organizações envolve compreender seus credores, sua capacidade geradora de caixa e o impacto que uma eventual interrupção poderia ter sobre a população atendida.
