Ao longo das últimas quatro décadas, a cirurgia oncológica passou por uma revolução significativa. Procedimentos que antes eram considerados arriscados tornaram-se mais seguros e menos invasivos, enquanto o progresso nas terapias sistêmicas ampliou as opções de tratamento para pacientes com doenças em estágios avançados. Essa evolução foi o tema central da conferência realizada na última terça-feira (25), que celebrou a inauguração do Núcleo de Cirurgia Oncológica do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, como parte das festividades pelos dez anos do Centro de Oncologia da instituição.
Intitulada “Cirurgia Oncológica: passado, presente e futuro”, a conferência foi apresentada pelo Dr. Yuman Fong, chefe do Departamento de Cirurgia do City of Hope, nos Estados Unidos, e membro da National Academy of Medicine. Durante sua palestra, ele revisitou a trajetória do tratamento de tumores hepáticos desde 1984, enfatizando os avanços significativos na prevenção e no manejo das hepatites, além da maior segurança associada às cirurgias no fígado. Fong salientou que a mortalidade operatória para procedimentos hepáticos atualmente gira em torno de 1%, com taxas de cura superiores a 40% em diversas condições oncológicas.
O papel do cirurgião oncológico também evoluiu consideravelmente. Se anteriormente as cirurgias focavam apenas em tumores localizados, hoje esses profissionais estão envolvidos em diferentes fases da doença: no caso da doença metastática, terapias-alvo e imunoterapias podem transformar pacientes antes classificados como inoperáveis em candidatos à cirurgia; por outro lado, a remoção antecipada de lesões pré-malignas pode evitar o desenvolvimento do câncer. Além disso, Fong alertou para o aumento alarmante do câncer colorretal entre indivíduos jovens — com um crescimento anual de cerca de 3% entre aqueles com menos de 50 anos, contrastando com a diminuição observada nas faixas etárias mais avançadas.
Inovações em tecnologia cirúrgica
Reconhecido pela sua expertise em cirurgia robótica hepática, Fong demonstrou como a tecnologia tem possibilitado intervenções menos invasivas e recuperação acelerada — com alguns pacientes recebendo alta no mesmo dia ou no dia seguinte ao procedimento. A telecirurgia também foi abordada durante sua apresentação: ele compartilhou um estudo realizado por sua equipe onde um pequeno robô foi operado remotamente enquanto estava na Estação Espacial Internacional, sugerindo novas possibilidades para suporte especializado e procedimentos à distância em áreas com escassez de especialistas.
A discussão sobre pesquisa envolvendo vírus oncolíticos geneticamente modificados para atacar células tumorais também fez parte da apresentação. Com mais de 25 anos dedicados à área, Fong contribuiu para o desenvolvimento do CF33, que atualmente está sendo testado em ensaios clínicos em dez centros ao redor do mundo. Ele reafirmou a importância contínua da cirurgia como parte fundamental na cura do câncer, destacando que não é suficiente apenas curar; é crucial tornar os tratamentos menos invasivos e acessíveis a todos.
Estrutura e protocolos do novo Núcleo
A relação entre o volume de procedimentos realizados e os resultados obtidos foi outro ponto abordado durante o Grand Round. Fong apresentou dados de um estudo dos EUA sobre cirurgia pancreática que mostraram que centros com alto volume apresentavam uma taxa de mortalidade operatória de 2%, comparada aos 8% observados em outros serviços — uma diferença que refletiu na sobrevida dos pacientes ao longo prazo. Esse princípio é uma das diretrizes que norteiam o novo Núcleo, conforme apresentado pelo superintendente médico do hospital, Dr. Luiz Antônio Nasi, sob coordenação do Dr. Vinicius Grando Gava.
O Núcleo conta com uma equipe composta por 13 cirurgiões especializados no tratamento de tumores relacionados ao aparelho digestivo, sarcomas, melanoma, neoplasias peritoneais e tumores raros. Entre as tecnologias utilizadas estão a cirurgia robótica Da Vinci Xi e tratamentos regionais como HIPEC (quimioterapia intraperitoneal hipertérmica), além dos protocolos ERAS (de recuperação acelerada no pós-operatório) e discussões multidisciplinares sobre casos complexos. O objetivo é oferecer uma abordagem integrada que abarca diagnóstico, cirurgia, tratamento clínico, radioterapia e reabilitação ao longo da trajetória dos pacientes. “O Núcleo traz identidade e metodologia a um trabalho já existente: concentrar volume, padronizar protocolos e avaliar nossos resultados. Assim se constrói um centro referência”, frisou Gava.
Nasi também destacou a iniciativa voltada para pesquisa em vacinas contra o câncer que está sendo desenvolvida em colaboração com instituições renomadas como a Universidade de Oxford, A.C.Camargo Cancer Center, Fiocruz e o Ministério da Saúde. “O Hospital Moinhos de Vento se envolve ativamente nessa empreitada como uma instituição geradora de conhecimento e pesquisa”, afirmou.
Núcleo de Cirurgia Oncológica
Localizado dentro do Hospital Moinhos de Vento, o Núcleo se dedica ao tratamento cirúrgico de tumores no aparelho digestivo — como esôfago, estômago, pâncreas, fígado e intestino grosso — além de sarcomas e melanomas.
Dentre as técnicas empregadas estão a cirurgia robótica com Da Vinci Xi , laparoscopia avançada e cirurgias multiviscerais com ressecções vasculares complementares às citorreduções seguidas por peritonectomia e terapias regionais como HIPEC e quimioterapia intra-arterial hepática.
A infraestrutura hospitalar oferece suporte completo — incluindo centro cirúrgico avançado, diagnóstico por imagem moderno, medicina nuclear eficiente junto à anatomia patológica detalhada — complementado por uma equipe multiprofissional composta por enfermeiros especializados, nutricionistas dedicados, fisioterapeutas experientes e psicólogos qualificados.
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