Os Estados Unidos concentram mais centros de dados do que qualquer outro país e mantêm aberta a rota internacional do lixo eletrônico que acompanha a expansão da inteligência artificial. Um relatório divulgado pela Basel Action Network em 15 de setembro calcula que equipamentos ligados à IA descartados entre 2025 e 2050 podem somar de 395 milhões a 617 milhões de toneladas métricas, com risco de exposição de trabalhadores, comunidades e crianças a chumbo, cromo, mercúrio e outros materiais tóxicos.
A conta muda porque a organização não mediu apenas servidores e processadores gráficos. A Basel Action Network, conhecida pela sigla BAN, incluiu equipamentos de energia, distribuição elétrica, resfriamento, baterias de reserva, redes e aparelhos que podem ser trocados antes do fim da vida útil pela corrida tecnológica criada pela IA.
O resultado desloca a discussão. A infraestrutura vendida como nuvem depende de metal, cabo, bateria, água, energia e descarte físico, e uma parte desse custo termina em cadeias de reciclagem informal fora dos países que mais lucram com a tecnologia.
A nuvem tem peso
A BAN estima 70 mil toneladas métricas de lixo eletrônico para cada gigawatt de capacidade de centros de dados. A projeção usa como uma de suas bases a estimativa da McKinsey de que a demanda global por capacidade de centros de dados pode chegar a 171 a 219 gigawatts em 2030.
A organização calcula que a IA possa responder por 15% a 20% do lixo eletrônico global até meados do século. Nesse cenário, a geração anual total de resíduos eletrônicos chegaria a 211 milhões de toneladas métricas em 2050, quase três vezes o patamar atual usado pela BAN.
O Monitor Global de Lixo Eletrônico, elaborado por União Internacional de Telecomunicações e Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa, registrou 62 milhões de toneladas geradas em 2022. Só 22,3% foram documentadas como coletadas e recicladas formalmente.
A diferença entre a propaganda digital e o resíduo real aparece no ciclo de vida do equipamento. A máquina comprada para treinar ou rodar modelos envelhece rápido, perde eficiência, exige troca e deixa para trás placas, cabos, baterias, fontes, racks e sistemas de refrigeração que não desaparecem quando o serviço sai da tela.
O buraco americano
O Índice de IA de Stanford registrou 5.427 centros de dados nos Estados Unidos em 2025, mais de dez vezes a quantidade de qualquer outro país na mesma contagem. Esse domínio dá ao país peso central na produção do resíduo associado à IA.
A Convenção de Basileia, criada para controlar movimentos internacionais de resíduos perigosos, passou a exigir desde 1º de janeiro de 2025 consentimento prévio por escrito para embarques internacionais de lixo eletrônico e sucata elétrica, inclusive quando destinados a reciclagem. Os Estados Unidos assinaram o tratado, mas não o ratificaram.
A própria Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos reconhece que o país não é parte da convenção. Também informa que muitos resíduos eletrônicos controlados por Basileia não são classificados como perigosos pela Lei de Conservação e Recuperação de Recursos, a principal lei federal americana de resíduos.
Esse detalhe jurídico sustenta a crítica da BAN. Se o resíduo não cai nas regras americanas mais duras, recicladores podem buscar rotas externas, enquanto países signatários precisam lidar com controles internacionais que Washington não assumiu integralmente.
As emendas de Basileia proíbem, salvo acordos específicos, o comércio de resíduos controlados entre países partes e não-partes. Na prática, a ausência americana cria uma assimetria em que o maior polo de centros de dados opera fora do regime multilateral mais importante para esse tipo de descarte.
A reciclagem que vira exposição
A Organização Mundial da Saúde afirma que a reciclagem, o armazenamento ou o descarte informal de lixo eletrônico podem liberar chumbo no ambiente. A agência também relaciona exposição pré-natal e infantil em áreas de reciclagem informal a efeitos como prejuízo ao neurodesenvolvimento, alterações respiratórias, dano ao DNA, disfunções da tireoide e maior risco de doenças crônicas.
A OMS estima que até 18 milhões de crianças e adolescentes e 12,9 milhões de mulheres possam estar em risco por atividades ligadas à reciclagem de lixo eletrônico. O dado não significa que todas trabalhem diretamente com placas e fios, mas mostra a escala humana de um mercado que costuma ficar escondido atrás da palavra reciclagem.
Nos pátios informais, o valor está no cobre, no ouro, no alumínio, no aço e em outros materiais recuperáveis. O custo fica na fumaça da queima de fios, no pó das placas quebradas, nos ácidos usados sem proteção e na contaminação de solo e água perto das moradias.
A IA amplia esse circuito porque acelera a substituição de equipamentos. Centros de dados exigem densidade maior de processamento, refrigeração mais complexa e redes capazes de mover volumes enormes de dados, o que empurra a troca de componentes para ciclos mais curtos.
A estimativa também tem limite
O número da BAN é maior que estimativas acadêmicas recentes porque mede um perímetro mais amplo. Um estudo publicado em 2024 na Nature Computational Science calculou de 1,2 milhão a 5 milhões de toneladas acumuladas de lixo eletrônico de IA generativa entre 2020 e 2030, com foco mais estreito em infraestrutura computacional.
Outro estudo publicado em 2026 em Resources, Conservation and Recycling estimou que servidores de IA podem gerar de 131 mil a 224,8 mil toneladas por ano até 2030. A comparação direta com a BAN exige cuidado, porque a organização incorpora equipamentos auxiliares e um efeito de troca antecipada de aparelhos e infraestrutura de telecomunicações.
Esse limite não derruba o alerta principal. Mesmo quando se exclui o efeito mais amplo sobre dispositivos pessoais, centros de dados continuam dependendo de sistemas elétricos, térmicos e de rede que também viram resíduo.
Jim Puckett, fundador e diretor de estratégia da BAN, resumiu a tese em nota ao afirmar que a IA pode parecer sem peso, mas cada modelo depende de uma quantidade enorme de hardware especializado. A advertência mira governos e empresas que expandem capacidade agora sem plano proporcional para desmontagem, reúso, rastreamento e reciclagem segura.
A disputa, no fundo, não é sobre uma pilha futura de computadores velhos. É sobre quem fica com os ganhos da IA e quem respira a poeira tóxica quando a máquina deixa de servir ao próximo modelo.
