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Estou ansiosa para observar como o fenômeno Super El Niño influenciará as próximas eleições no Brasil. Apesar de o tema “clima” não ter sido amplamente abordado nos debates até agora, espera-se que sua relevância aumente à medida que a data das votações se aproxima. Neste momento, os brasileiros parecem mais preocupados com questões como segurança pública e economia.
Entretanto, como será a situação quando as chuvas intensas começarem a afetar o Sul do Brasil, enquanto o Norte, Nordeste e Centro-Oeste enfrentarem secas severas? E quando ondas de calor extremo se tornarem comuns nas grandes cidades do Sudeste? Como reagirá o eleitor quando os preços dos alimentos subirem e a fumaça dos incêndios florestais escurecer o céu das capitais na Amazônia?
A previsão é alarmante: se em 2024 já enfrentamos inundações no Rio Grande do Sul e incêndios florestais sem precedentes na Amazônia, os efeitos deste ano podem ser ainda mais devastadores. A atualização da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) em 10 de agosto indicou que o aquecimento do Pacífico já ultrapassou 1,8 grau acima da média histórica (com um aumento de 0,6 grau em menos de um mês) e há uma probabilidade de 95% de que o fenômeno atinja seu pico entre outubro e dezembro, superando os recordes dos últimos seis décadas.
A presença desse fenômeno indesejado pode incentivar a população a reconhecer a urgência da crise climática e refletir isso nas urnas. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos revelou que 70% dos eleitores acreditam que ações imediatas são necessárias para mitigar os impactos nas futuras gerações. Se essa consciência ainda não estiver suficiente para pressionar os políticos, talvez as circunstâncias mudem quando eventos climáticos extremos ocorrerem durante as eleições.
O impacto do Super El Niño poderá ser especialmente significativo nas campanhas dos governadores que buscam reeleição. Apenas quatro estados – Minas Gerais, Pará, Pernambuco e Piauí – possuem planos robustos para adaptação climática, conforme estudo publicado pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS) em março deste ano. Outros oito estados têm planos baseados apenas no fortalecimento da defesa civil, uma estratégia útil mas considerada insuficiente pelos pesquisadores.
Seria ideal que os eleitores não apenas punissem aqueles que negligenciam suas responsabilidades ambientais, mas também utilizassem critérios ecológicos ao escolher deputados e senadores, de forma a impedir que o Congresso continue a desfazer legislações importantes. Isso inclui a aprovação do pacote conhecido como Lei Geral do Licenciamento Ambiental, atualmente com sua constitucionalidade sendo analisada pelo STF (para mais informações, confira a coluna de Gustavo Faleiros desta semana), assim como o projeto do Marco Temporal, que voltou ao STF após uma decisão anterior contrária do próprio tribunal.
Embora as opções sejam limitadas – motivo pelo qual a imprensa especializada tem dado destaque à candidatura de Marina Silva ao Senado – aqueles preocupados com questões climáticas, ambientais e democráticas ainda têm alternativas para escolher na Câmara Federal e Assembleias Legislativas. Isso inclui candidaturas indígenas já anunciadas para cargos estaduais e federais, além de outros candidatos com um histórico sólido na área ambiental representando partidos como Rede, PSOL, PCdoB e PT.
Em relação à presidência, as opções diminuem consideravelmente. Recentemente ouvi uma pessoa afirmar que não pretende reeleger Lula, mas se considera democrata, feminista e ambientalista; mencionou o nome de Ronaldo Caiado, que tem circulado em algumas discussões sobre clima conforme verifiquei com outras fontes envolvidas na temática.
Essa revelação foi surpreendente para mim como jornalista com mais de quatro décadas de experiência. Lembro-me bem do atual governador de Goiás como fundador da UDR — União Democrática Ruralista — em 1985, responsável por introduzir milícias armadas no campo durante o processo de redemocratização. Ele também esteve à frente da bancada ruralista, até hoje uma das principais defensoras de pautas contra fiscalização ambiental e proteção aos direitos indígenas.
O próprio candidato orgulha-se abertamente de seu compromisso com o agronegócio, setor responsável pela maior parte das emissões de gases poluentes no país; além disso, designou Aldo Rebelo como coordenador de sua campanha. Rebelo tem um histórico negativo em questões ambientais desde sua atuação como relator do Código Florestal; ele trabalhou para flexibilizar regras sobre desmatamento e anistiar infratores ambientais sob a alegação de que as leis eram excessivamente rigorosas (!). Posteriormente passou a perseguir organizações não governamentais ambientalistas e indígenas na Amazônia.
Caiado também não pode ser considerado um democrata devido à violência contra agricultores familiares sem-terra e indígenas promovida por ele desde a fundação da UDR. Sua gestão foi marcada por uma violência policial acima da média nacional e decisões apressadas para transformar Goiás em um laboratório das grandes empresas tecnológicas ao aprovar rapidamente leis sobre temas ainda debatidos pelo Congresso Nacional — incluindo minerais críticos, datacenters e inteligência artificial — conforme revelado pela Agência Pública esta semana.
Além disso, assim como Flávio Bolsonaro e Romeu Zema — ambos conhecidos por suas posturas antiecológicas — Caiado defende anistia para golpistas. O negacionismo climático é uma característica comum da extrema direita junto ao autoritarismo e ao desprezo pelos direitos humanos; elementos essenciais para estabelecer políticas climáticas eficazes. Exemplos disso são Donald Trump e Jair Bolsonaro.
Para aqueles que se consideram ambientalistas mas não desejam reeleger Lula — segundo comentou minha interlocutora — a situação está complicada. Meu conselho é: façam escolhas cuidadosas para o Legislativo. Embora Lula seja um entusiasta do petróleo (não chegando aos pés de Marina Silva), ele teve a coragem de nomeá-la ministra; isso resultou em uma redução significativa do desmatamento na Amazônia e reposicionou o Brasil como líder nas discussões climáticas globais.
Resta saber qual será o tom do debate eleitoral quando o El Niño se manifestar trazendo tempestades, secas e ondas extremas de calor. Até agora, mesmo apresentando resultados positivos em diversas áreas, nem mesmo o governo tem tratado questões climáticas como prioridade nas eleições. É hora de assumir esse compromisso.
⏰ Lembrete: O podcast Bom Dia, Fim do Mundo retornará na próxima quinta-feira (20), abordando clima e eleições neste período crítico marcado por temperaturas extremas tanto no planeta quanto na política. Não percam!
