Nesta terça-feira (7), cientistas da China revelaram uma inovadora bateria nuclear que pode operar por milhares de anos sem necessidade de recarga. Denominado Qianjiyuan Tianshu, o dispositivo foi desenvolvido pela Universidade Normal do Noroeste da China em colaboração com a Gansu Zhulong Technology. Os pesquisadores garantem que todo o projeto foi realizado com tecnologia e componentes nacionais, sem depender de fornecedores internacionais.
Uma nova era — mas ainda limitada a microwatts
Esse novo modelo representa uma evolução do Candle Dragon-I (ou Zhulong-1), a primeira versão da bateria que foi divulgada pela mesma equipe em novembro de 2024. De acordo com os pesquisadores, a nova versão conseguiu reduzir o uso de material radioativo para apenas 22% do necessário na geração anterior, enquanto aumentou em 2,5 vezes a corrente de curto-circuito e em 2,6 vezes a potência máxima, mantendo a tensão e estabilidade inalteradas. Além disso, o volume do equipamento foi reduzido para 17% do tamanho original, resultando em um aumento de 15,5 vezes na densidade de potência por unidade de volume.
O físico Su Maogen, líder do projeto na universidade, destacou que o carbono-14 utilizado como fonte energética possui meia-vida de 5.730 anos, o que permite uma expectativa teórica de funcionamento na ordem dos milênios. Ele também mencionou que a bateria opera com confiabilidade em temperaturas que variam de -100°C a 200°C, o que amplia suas possibilidades de uso em áreas como implantes médicos, expedições em regiões polares, exploração marítima profunda e aplicações nas áreas aeroespacial e de defesa.
A corrida tecnológica global — e a posição da China
É importante situar esse anúncio dentro de uma competição tecnológica global que já se arrasta há alguns anos e na qual a China é apenas uma das participantes. Em janeiro de 2024, a startup Betavolt revelou um protótipo de bateria nuclear utilizando níquel-63 encapsulado em semicondutor de diamante, apresentando uma potência estimada em 100 microwatts e uma vida útil projetada para 50 anos — características que ainda definem essa tecnologia atualmente. No Reino Unido, pesquisadores da Universidade de Bristol fundaram em 2020 a Arkenlight com o objetivo de desenvolver uma abordagem similar ao extrair carbono-14 de grafite irradiado proveniente de usinas nucleares desativadas — o mesmo isótopo adotado pela equipe chinesa. Além disso, na Coreia do Sul, o Instituto de Ciência e Tecnologia de Daegu Gyeongbuk apresentou em 2025 uma bateria betavoltaica eficiente baseada nesse princípio.
Aspectos não tão evidentes no anúncio
É prudente abordar este anúncio com cautela jornalística, especialmente porque as informações provêm quase exclusivamente do comunicado da equipe responsável pela pesquisa. As baterias nucleares desse tipo — conhecidas como betavoltaicas — convertem a energia da radiação beta emitida por isótopos radioativos em eletricidade através de semicondutores. Este conceito existe desde os anos 1950 e já é aplicado em versões mais robustas (como os geradores termoelétricos de radioisótopos) em sondas espaciais como as Voyager e o rover Curiosity da NASA.
No entanto, um dos principais desafios dessa nova geração de baterias compactas é a sua densidade energética ainda muito baixa. Mesmo as versões mais avançadas desenvolvidas por Betavolt e Arkenlight operam na faixa dos microwatts — energia suficiente para alimentar sensores pequenos ou LEDs baixos consumo, mas incapaz atualmente de sustentar dispositivos mais simples como smartphones ou laptops. Um experimento realizado por outro grupo utilizando carbono-14 demonstrou uma lâmpada LED funcionando por apenas quatro meses após emitir cerca de 35 mil pulsos luminosos — evidenciando mais um conceito teórico do que uma aplicação prática imediata.
A verdadeira inovação do projeto chinês
O aspecto mais significativo deste anúncio pode não ser tanto a performance da bateria em si, mas sim a cadeia produtiva associada ao seu desenvolvimento. Historicamente, a China dependia da importação do carbono-14 proveniente de países como Canadá, África do Sul, Rússia e Austrália. Desde o ano passado, entretanto, iniciou-se a produção comercial deste isótopo em um reator nuclear localizado em Zhejiang — um avanço que sustenta as reivindicações dos pesquisadores sobre autossuficiência tecnológica nesta nova versão.
Dessa forma, trata-se realmente de um progresso dentro desse nicho ainda experimental; no entanto, permanece distante das promessas mais audaciosas relacionadas à “energia nuclear portátil” frequentemente ligadas a esse tipo de anúncio. Aplicações verdadeiramente transformadoras — como marcapassos ou interfaces cérebro-computador capazes de funcionar por longos períodos sem troca de baterias — permanecem no âmbito das expectativas futuras mencionadas pelos próprios cientistas envolvidos no projeto.
