Estimativas indicam que, em 2026, a Samsung Electronics Co. e a SK hynix Inc. poderão dominar mais da metade do mercado global de semicondutores, que se espera ultrapasse US$ 1,6 trilhão, o equivalente a cerca de R$ 8,2 trilhões com a cotação deste domingo (20). Essa previsão do centro de pesquisa do Banco de Exportação e Importação da Coreia do Sul desafia as expectativas de desaceleração na área da inteligência artificial (IA) e evidencia como a demanda por dados se transformou em um motor industrial significativo na Coreia do Sul.
Um relatório publicado em 15 de setembro revisou para cima em 60% as projeções feitas anteriormente em maio, quando se estimava que o setor superaria US$ 1 trilhão ainda este ano. A expectativa era de que essa marca só fosse alcançada em 2030.
Chips de memória dominam o cenário
A mudança no mercado é impulsionada pelos chips de memória, onde as duas empresas sul-coreanas desempenham um papel crucial. Segundo o Korea Eximbank, esse segmento deverá atingir US$ 886,5 bilhões em 2026, correspondendo a 55% do mercado mundial de semicondutores, um aumento significativo em relação aos aproximadamente 30% registrados no ano anterior.
A memória dinâmica de acesso aleatório (DRAM) deve gerar US$ 519 bilhões até o final deste ano. Já a memória NAND, utilizada para armazenamento prolongado, poderá alcançar US$ 360 bilhões, beneficiada pela transição da IA de modelos focados no treinamento para aqueles baseados em inferência que necessitam armazenar e processar grandes volumes de dados.
Os preços refletem a pressão sobre a oferta. No final de agosto, o custo da DRAM comum estava em torno de US$ 25 (aproximadamente R$ 129), uma alta de 4,4 vezes em comparação ao ano anterior. Por sua vez, a NAND registrou preço de US$ 30,50 (cerca de R$ 157), nove vezes maior que há um ano.
A TrendForce relatou um crescimento de 59,5% na receita global da DRAM no segundo trimestre de 2026, atingindo US$ 154,73 bilhões. A Samsung foi a líder desse período com uma participação de mercado de 39,4%, seguida pela SK hynix com 24,9%. Esse ciclo é caracterizado pela forte demanda por servidores para IA e oferta ainda restrita.
Contratos prolongados amenizam oscilações
A indústria de memória sempre enfrentou um desafio recorrente: quando os preços subiam, os fabricantes aumentavam sua capacidade produtiva e acabavam com excesso na oferta, resultando na queda das margens de lucro.
No entanto, o ciclo atual apresenta uma distinção relevante. Grandes provedores de data centers nos Estados Unidos e na China intensificaram seus investimentos em infraestrutura voltada à IA e começaram a buscar contratos com duração entre três e cinco anos junto à Samsung e SK hynix. Esse modelo ajuda a mitigar os riscos associados às flutuações temporais nos preços.
Embora essa estabilidade seja positiva, ela transfere parte do risco para uma concentração elevada entre grandes compradores que podem assegurar capacidade produtiva por longos períodos. Isso pode dificultar a competição para empresas menores no mercado aberto.
Em julho passado, o Banco da Coreia já havia destacado que este ciclo difere dos anteriores devido aos investimentos corporativos nas mudanças estruturais do ecossistema industrial impulsionadas pela IA. A instituição também apontou incertezas quanto à velocidade da adoção e rentabilidade dessa tecnologia, fatores que continuam a exercer pressão sobre ações e planos financeiros.
Mercado de trabalho cresce sob novos desafios
A expansão já é visível no setor empregatício sul-coreano. O número total de empregos na fabricação de semicondutores alcançou 174 mil no primeiro trimestre de 2026, representando o maior índice desde que os registros começaram em 2018 e uma alta de 14,5% comparado aos 152 mil empregos do mesmo período anterior.
No entanto, esse crescimento apresenta limitações. As novas contratações nesse setor diminuíram em 21,6% desde o primeiro trimestre de 2018. Isso indica que embora os salários sejam mais altos e as posições qualificados sejam mantidas com mais rigor, as vagas não estão crescendo na mesma proporção que a receita aumenta.
Os salários também experimentaram elevações significativas. A Federação das Empresas da Coreia informou neste domingo (20) que o salário médio mensal dos trabalhadores com contrato integral atingiu 4.318 milhões de won no primeiro semestre deste ano — cerca de US$ 3.100 ou R$ 15.900 — com um aumento anual de 3,1%, impulsionado por bônus elevados na indústria dos semicondutores.
No segmento eletrônico e telecomunicações — englobando semicondutores — o salário médio mensal chegou a impressionantes 9.434 milhões de won, mais do que o dobro da média dos demais setores sul-coreanos. Essa discrepância revela como a competição por chips se transformou não apenas numa corrida tecnológica mas também numa fonte vital para sustentar renda e bônus dentro das cadeias produtivas inteiras.
Oferta limita crescimento futuro
As previsões apontam que os preços dos chips devem se estabilizar após 2027 conforme indicado pelo relatório sul-coreano. Apesar disso, a manutenção da demanda contínua por serviços relacionados a centros de dados e inteligência artificial sustenta expectativas otimistas quanto ao mercado global dos semicondutores podendo se aproximar dos US$ 2 trilhões até o ano de 2030 — algo como R$ 10,3 trilhões.
A disputa atual gira em torno da capacidade das empresas em transformar contratos firmados em produção efetiva. Tanto a Samsung quanto a SK hynix possuem vantagens significativas relacionadas à escala operacional e tecnologia avançada além da garantia fornecida por clientes contratuais ao longo prazo; contudo, a escassez que aumentou os preços pode se tornar um entrave caso o ritmo da expansão fabril não acompanhe o volume crescente dos dados impulsionados pela IA no cenário econômico global.
