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Tecnologia

Pesquisadores moldam a luz para transformar a comunicação quântica

Diário do RecifeDiário do Recife—março 19, 20260
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Uma revisão científica liderada por África do Sul e Espanha mostra como moldar partículas de luz para carregar muito mais dados, pavimentando o caminho para redes ultrasseguras.

Um fóton é a menor partícula de luz, mas guarda segredos que a ciência está apenas começando a desvendar.

Por décadas, os físicos o trataram como uma unidade simples de informação, carregando apenas um bit por vez.

Agora, uma equipe da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, em parceria com a Universitat Autònoma de Barcelona, na Espanha, mostrou que é possível moldar o fóton de formas radicalmente novas. Essa transformação o torna um veículo muito mais poderoso para a informação.

O estudo, uma revisão publicada na revista Nature Photonics, sintetiza os avanços na área da luz quântica estruturada. Os cientistas descrevem como controlar simultaneamente o padrão espacial, o momento de emissão e o espectro de frequências de um fóton. O resultado são os chamados fótons estruturados.

Imagine um fóton comum como uma carta em um único idioma. Um fóton estruturado seria como uma carta escrita em vários idiomas e formatos ao mesmo tempo, transmitindo muito mais conteúdo de uma só vez. Essa capacidade ampliada é a codificação de alta dimensão.

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A lógica é simples. Com mais dimensões para codificar, cada partícula de luz carrega mais dados e se torna mais resistente a interferências. Isso é fundamental para sistemas de comunicação que precisam ser rápidos e absolutamente seguros.

O professor Andrew Forbes, autor principal do estudo, destacou a transformação radical das últimas duas décadas. Há vinte anos, as ferramentas para manipular a luz quântica eram escassas. Hoje, existem dispositivos compactos e integrados em chips que fazem esse controle com precisão.

Os avanços incluem fotônica integrada, óptica não linear e conversão de luz em múltiplos planos. Em termos práticos, os laboratórios agora possuem ferramentas menores e mais eficientes. A tecnologia está saindo de ambientes experimentais gigantescos e se aproximando de equipamentos de telecomunicações reais.

Apesar do entusiasmo, o caminho ainda tem obstáculos. A principal limitação atual é a distância que esses sinais conseguem percorrer de forma estável. Fótons estruturados são mais sensíveis a distorções, funcionando melhor em curtas distâncias por enquanto. Essa restrição os coloca em desvantagem frente às fibras ópticas convencionais para comunicações de longo alcance.

Para superar essa barreira, os pesquisadores exploram os estados topológicos quânticos. A topologia na física descreve propriedades que permanecem estáveis mesmo quando o ambiente muda. Aplicada à luz, essa ideia promete criar sinais que preservam a informação mesmo sob perturbações, como interferências ou imperfeições no canal.

Outro avanço crucial é o entrelaçamento multidimensional. É um fenômeno quântico onde dois fótons ficam conectados, de modo que o que acontece com um afeta instantaneamente o outro, independentemente da distância. Quando isso ocorre em múltiplas dimensões, a capacidade e a segurança da comunicação aumentam dramaticamente.

Para o Brasil, o tema vai além da curiosidade científica. O país possui centros de pesquisa de alto nível em física quântica, como o Instituto de Física da USP e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. A participação nacional nessa corrida depende de investimento público e de parcerias Sul-Sul, justamente o tipo de colaboração exemplificada por este estudo entre África do Sul e Espanha.

A disputa pela computação e comunicação quântica está no centro da rivalidade tecnológica global. Estados Unidos e China investem bilhões. A China já opera a maior rede quântica terrestre do mundo. Descobertas como esta demonstram que o Sul Global tem capacidade de produzir ciência de ponta, sem apenas consumir tecnologia estrangeira.

Esta revisão chega quando o mundo debate a construção da internet quântica, uma rede global com segurança matematicamente inquebrável. Cada avanço em luz estruturada é um tijolo nessa construção. Os pesquisadores são cautelosos, pois ainda é preciso aumentar o número de dimensões úteis, a taxa de produção de fótons e a robustez dos estados no mundo real.

Mas o horizonte está mais luminoso do que nunca. A ciência feita em Johannesburgo prova que grandes descobertas não nascem apenas no Vale do Silício ou em Pequim.

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