Uma recente pesquisa genética revelou uma migração humana até então não reconhecida em direção à América do Sul, desafiando a visão tradicional sobre a origem dos povos indígenas do continente.
O estudo investigou quase 200 genomas de populações indígenas, incluindo 128 novas amostras provenientes de países como Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru. Foram analisadas 45 populações pertencentes a 28 famílias linguísticas.
Os achados indicam que a colonização da América do Sul foi mais intrincada do que se imaginava anteriormente.
Anteriores modelos sugeriam apenas duas camadas genéticas ancestrais significativas. Contudo, o novo estudo aponta para uma terceira onda migratória, ocorrida há pelo menos 1.300 anos, aproximadamente em 720 d.C.
A evidência sugere que essa migração teve origem em grupos associados à Mesoamérica.
Os dados coletados demonstram um fluxo genético gradual entre Mesoamérica, Caribe e América do Sul, ao invés de um evento isolado. Essa dinâmica coincide com um período de reestruturação das sociedades antigas na área, como o declínio de cidades notáveis como Teotihuacan entre os séculos VII e VIII.
A pesquisa foi divulgada na renomada revista Nature, uma das principais publicações científicas globais. Este trabalho faz parte do Indigenous American Genomic Diversity Project, que visa expandir o conhecimento sobre a diversidade genética das populações indígenas nas Américas.
Certa descoberta adicional também se destacou.
Cientistas detectaram vestígios de uma antiga linhagem asiática denominada Ypykuéra, cujo significado em tupi é “ancestral”. Embora presente em níveis baixos, essa linhagem é consistentemente encontrada em populações indígenas há mais de 10 mil anos.
Essa informação contribui para explicar as ligações genéticas remotas entre grupos indígenas americanos e habitantes da Australásia, que abrange os povos originários da Austrália, Nova Zelândia e ilhas do Pacífico.
No entanto, isso não implica que houve uma migração direta recente da Oceania para a América do Sul.
A interpretação dos pesquisadores sugere a existência de uma população ancestral ainda não catalogada, cuja contribuição genética beneficiou diferentes grupos humanos antes ou durante as primeiras fases de ocupação das Américas.
A investigação também revelou genes relacionados à adaptação ambiental.
Dentre as variações identificadas, algumas estão ligadas a aspectos como metabolismo, fertilidade, imunidade e resistência a doenças como malária. Essas características foram essenciais para que as populações se ajustassem a ambientes desafiadores como os Andes e a Amazônia.
No contexto brasileiro, essa descoberta possui implicações diretas.
O Brasil é representado no estudo pelas populações indígenas analisadas e pela própria denominação tupi da linhagem Ypykuéra. Isso enfatiza a relevância da Amazônia e dos povos nativos brasileiros na história genética do continente.
A pesquisa também preenche uma lacuna histórica significativa.
Ainda recentemente, havia poucos estudos genéticos focados em grupos indígenas amazônicos, resultando em uma sub-representação dessa região no âmbito científico global.
No cenário científico, as consequências dessa pesquisa são profundas.
A América do Sul deixa de ser vista como um destino final de uma única grande migração humana e passa a ser entendida como um espaço de circulação contínua, mistura cultural e adaptações ao longo do tempo.
No aspecto político e cultural, o estudo reafirma o papel fundamental dos povos indígenas como guardiões de uma narrativa histórica que remonta milênios antes da formação dos Estados nacionais.
A essência desse achado é clara.
A constituição genética da América do Sul não foi simples ou linear.
Pelo contrário, resulta de ondas migratórias interligadas, conexões antigas e adaptações locais que permanecem registradas no DNA das comunidades originárias.
Com informações da South China Morning Post
