Na última segunda-feira, 23 de fevereiro, dezenas de pessoas se reuniram em um terminal portuário da Cargill, localizado às margens do rio Tapajós em Santarém (PA). O objetivo do grupo, formado por cerca de 60 indígenas de 14 povos diferentes do Baixo Tapajós, era protestar contra um decreto do governo federal que abriria caminho para a concessão à iniciativa privada de hidrovias em três rios amazônicos: Tapajós, Madeira e Tocantins. A ocupação, iniciada no dia 22 de janeiro, durou 33 dias e contou com a adesão de mais de 700 indígenas, que se organizaram para estabelecer infraestrutura básica e disseminar sua mensagem enquanto resistiam às pressões judiciais.
A mobilização foi marcada por ações pacíficas e estratégicas, que envolveram os indígenas ocupando áreas tanto externas quanto internas do terminal. Apesar das tensões causadas por uma ordem de reintegração de posse expedida pela Justiça, o grupo manteve-se unido, resistindo por mais dez dias até que a Justiça decretasse a desocupação da área.
A resistência dos indígenas resultou em uma vitória significativa: a revogação do decreto 12.600 pelo presidente Lula. A decisão foi anunciada por Guilherme Boulos em Brasília, numa reunião com lideranças indígenas, como Auricelia Fonseca Arapiun, uma das principais representantes dos povos do Baixo Tapajós. Enquanto a mobilização se espalhava e contava com a adesão de outros grupos étnicos, como os Munduruku, Kayapó e Paraná, a vitória foi celebrada como um exemplo de resistência popular e um alerta para a importância da luta coletiva na defesa dos direitos territoriais e ambientais.
Auricelia, em entrevista concedida à imprensa, ressaltou que a luta dos povos indígenas vai além da revogação de decretos e projetos que afetam seus territórios. Ela mencionou ainda desafios futuros, como a ameaça representada pelo projeto da Ferrogrão, uma ferrovia projetada para ligar o Mato Grosso e o Pará, e a necessidade de fortalecer a representação indígena em instâncias políticas, como as eleições que se aproximam.
A vitória dos povos do Baixo Tapajós na luta contra a privatização das hidrovias da Amazônia ressalta a importância da resistência e da união em defesa dos direitos territoriais e ambientais. A ocupação do terminal portuário da Cargill foi um marco na luta dos povos indígenas contra políticas governamentais que ameaçam a integridade de seus territórios e a preservação do meio ambiente.
