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  Tecnologia  Altos preços dos combustíveis impulsionam demanda por carros elétricos, porém inflação impede transição definitiva.
Tecnologia

Altos preços dos combustíveis impulsionam demanda por carros elétricos, porém inflação impede transição definitiva.

Diário do RecifeDiário do Recife—março 26, 20260
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A gasolina cara pode acelerar a troca de tecnologia, mas expõe o custo social de seguir refém dos combustíveis fósseis.

A disparada da gasolina recolocou o carro elétrico no centro do debate econômico e energético.

A resposta curta para a pergunta é sim: combustível caro ajuda a empurrar parte dos consumidores para veículos elétricos e híbridos.

Mas o mesmo choque que estimula a troca de tecnologia também encarece cadeias produtivas inteiras, espalha inflação e pode até dificultar a própria transição energética.

Segundo análise recente, a alta dos combustíveis fósseis funciona como incentivo de mercado para a eletrificação do transporte, mas esse efeito está longe de ser linear. O encarecimento da energia atinge produção, logística, crédito e investimento, criando um cenário contraditório.

Nos Estados Unidos, o preço médio da gasolina chegou a 3,98 dólares por galão em 25 de março, depois de ficar abaixo de 3 dólares antes da escalada do conflito envolvendo o Irã. Esse salto reacendeu o interesse por automóveis elétricos e híbridos, sobretudo entre consumidores que já vinham monitorando esse mercado.

Os primeiros sinais apareceram nas buscas online por veículos. Um marketplace de carros nos Estados Unidos informou que o tráfego por modelos elétricos subiu 20% após os ataques iniciais, e alguns dos veículos mais populares quase dobraram sua procura.

O movimento não ficou restrito ao mercado norte-americano. Relatos indicam que concessionárias no entorno de Londres e em Manila registraram aumento forte na demanda, com estoques pressionados e encomendas acima do ritmo habitual.

Esse tipo de reação não é novidade na história do capitalismo fóssil. Choques no petróleo já alteraram padrões de consumo em outros momentos, especialmente quando o preço da energia passou a afetar diretamente o orçamento das famílias.

Na crise do petróleo dos anos 1970, motoristas norte-americanos migraram em massa para carros menores e mais eficientes. Aquela virada abriu espaço para montadoras japonesas, que estavam mais preparadas do que a indústria automobilística dos Estados Unidos para responder a um cenário de energia cara.

Agora, a mudança potencial é mais profunda. Em vez de apenas trocar um carro grande por um menor, parte dos consumidores começa a considerar a saída do motor a combustão.

Isso acontece porque, em certos patamares de preço, a conta total passa a favorecer o veículo elétrico. Segundo dados, quando a gasolina ronda 4 dólares por galão, o custo total de propriedade de um carro elétrico já pode ficar confortavelmente abaixo do de um veículo convencional, mesmo com energia elétrica mais cara.

Ainda assim, a decisão não depende apenas da matemática. Há uma barreira psicológica, financeira e estrutural que continua pesando sobre o consumidor médio.

Uma pesquisa mostrou que muitos consumidores dos Estados Unidos só cogitariam migrar para um elétrico ou híbrido se a gasolina chegasse a 6 dólares por galão. Isso revela que o incentivo econômico existe, mas não basta sozinho para provocar uma mudança em massa.

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Na prática, a escolha envolve muito mais do que o preço no posto. O comprador também avalia preço de entrada, autonomia, infraestrutura de recarga, valor de revenda e acesso a crédito.

Há, porém, um fator novo que pode alterar esse cálculo nos próximos meses. O mercado norte-americano deve receber neste ano uma onda de veículos elétricos usados mais baratos, resultado do boom de leasing estimulado por incentivos públicos aprovados três anos atrás.

Cerca de 300 mil contratos devem vencer em 2025, ampliando a oferta de usados e reduzindo a barreira de entrada para famílias que não conseguem comprar modelos novos. Se esse movimento coincidir com combustíveis persistentemente caros, a eletrificação pode ganhar uma janela concreta de expansão.

Seria um erro, no entanto, tratar gasolina cara como boa notícia em si. O problema é mais profundo e socialmente mais amplo do que a eventual vantagem comparativa do carro elétrico.

Combustível caro não pesa apenas no tanque do automóvel particular. Ele encarece transporte marítimo, fertilizantes, passagens aéreas, alimentos e bens industriais, contaminando a economia inteira.

O combustível representa entre 50% e 60% do custo de envio de mercadorias por via marítima. Quando petróleo e gás sobem de forma persistente, a inflação deixa de ser um fenômeno setorial e se espalha por toda a cadeia de preços.

O impacto sobre os fertilizantes é especialmente sensível. A produção atual depende fortemente do gás natural, e esse insumo ficou mais caro em várias regiões, especialmente na Europa.

Isso significa pressão direta sobre a agricultura e, por consequência, sobre os preços dos alimentos. Em países periféricos e emergentes, esse efeito costuma ser ainda mais severo, porque a alta externa se combina com volatilidade cambial e dependência de importações estratégicas.

No transporte aéreo, o choque também é relevante. O querosene de aviação praticamente dobrou de preço em um mês.

Como o combustível representa cerca de um quarto dos custos operacionais das companhias aéreas, o repasse tende a aparecer rapidamente nas tarifas e no frete aéreo. Isso afeta turismo, logística e o preço de produtos de maior valor agregado.

Há ainda um risco menos visível, mas central para qualquer estratégia séria de descarbonização. Se a alta dos fósseis produzir desaceleração econômica, juros mais altos ou retração do crédito, projetos de energia limpa também podem sofrer.

Usinas eólicas, parques solares, redes elétricas e fábricas de baterias dependem de financiamento de longo prazo. Quando o ambiente macroeconômico piora, até investimentos estratégicos para a transição ecológica ficam mais difíceis.

A contradição é evidente. A volatilidade fóssil pode empurrar consumidores para o carro elétrico e, ao mesmo tempo, sabotar a infraestrutura necessária para consolidar essa mudança.

Para o Brasil e para o Sul Global, a lição é direta. A transição energética não pode depender apenas de impulsos de mercado provocados por crises geopolíticas e choques de preços.

É preciso política industrial, crédito público, expansão da infraestrutura de recarga, fortalecimento das cadeias de baterias e planejamento estatal. Sem isso, a eletrificação avança de forma desigual, subordinada aos ciclos de preço definidos por um mercado global altamente concentrado.

Também por isso a ascensão da China no setor é tão relevante. O país asiático construiu capacidade produtiva em baterias, veículos elétricos e energia renovável com forte coordenação pública, reduzindo custos e acelerando escala.

Esse modelo mostra que soberania tecnológica e transição climática podem caminhar juntas. Para países como o Brasil, a escolha estratégica não é torcer por gasolina cara, mas usar a crise dos fósseis para acelerar um projeto nacional de mobilidade limpa e reindustrialização.

No fim, a alta da gasolina pode funcionar como empurrão para o carro elétrico. Mas ela também escancara o preço social de continuar preso a uma economia movida por combustíveis fósseis.

O avanço real não está em comemorar o sofrimento do consumidor no posto. Está em construir alternativas estáveis, acessíveis e soberanas

BYDEnergiaEstados UnidosnewsTecnologiaTesla
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