Duas correntes de pescoço que pertenciam ao renomado pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior, que foi sequestrado e assassinado aos 35 anos em Buenos Aires, no dia 18 de março de 1976, em um crime atribuído ao terrorismo de Estado da ditadura argentina, foram entregues nesta quarta-feira, 25 de março, a filhos e netos do músico, no Rio de Janeiro, por autoridades brasileiras e do país vizinho como forma de homenagem.
Tenório foi um dos grandes pianistas brasileiros, com formação nas casas noturnas do Beco das Garrafas. Ele registrou seu único disco solo, “Embalo”, em 1964, e ao longo de sua carreira, colaborou com artistas como Milton Nascimento, Lô Borges, Gal Costa, Beto Guedes, Edu Lobo, entre outros.
“Há exatos 50 anos nosso avô saiu do Brasil e hoje esses dois colares que estavam com ele retornam para nossa família”, afirmou emocionada Sofia Cerqueira Borges, 25, neta do músico, durante a cerimônia realizada pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), na sede da Procuradoria Regional da República da 2ª Região (RJ).
Em setembro de 2025, a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) anunciou que as impressões digitais recolhidas de um cadáver encontrado em um terreno baldio na cidade de Tigre, ao norte de Buenos Aires, com cinco perfurações de bala, em 20 de março de 1976, eram equivalentes às dos documentos brasileiros de Tenório Jr.
Segundo Sofia, a vida da família mudou ao descobrir a verdade sobre o destino do pianista. A certidão de óbito retificada de Tenório Jr. foi entregue em dezembro e, finalmente, hoje a família recuperou seus pertences.
Identificação e restos mortais: “O corpo mesmo dificilmente será encontrado”
A identificação de Tenório Jr. foi possível porque, em 1976, a polícia argentina abriu um inquérito de encontro de cadáver e, na ocasião, ninguém reclamou o corpo do músico, que foi enterrado como desconhecido no cemitério de Benavidez. O EAAF conseguiu fazer a ligação entre as impressões digitais do corpo e os documentos de desaparecidos brasileiros, permitindo a identificação do pianista.
Apesar da descoberta, os restos mortais de Tenório Jr. ainda estão desaparecidos, indicando que possivelmente foram levados a um ossuário sem que tenham sido encontrados até o momento.
Para a família, mesmo que não seja possível encontrar os restos mortais, esse momento é de grande importância. Segundo a presidente da CEMDP, procuradora regional da República Eugênia Augusta Gonzaga, “A parte mais bela desse trabalho é ver uma família ter uma certeza que lhe foi negada por muito tempo”. O antropólogo forense Carlos Semigliana, da equipe do EAAF, também destacou a importância deste momento para a família.
Quem matou Tenório Jr.?
Ao longo dos anos, diversas versões circularam sobre a autoria do crime. Uma delas, divulgada por uma revista brasileira nos anos 80, envolvia o ex-militar argentino Claudio Vallejos, que apontava militares do serviço secreto da Marinha argentina como responsáveis pelo sequestro e tortura de Tenório Jr. na Escola de Mecânica da Armada (ESMA). No entanto, a veracidade desse relato foi questionada posteriormente.
A identificação do corpo de Tenório Jr. deve abrir espaço para uma investigação mais aprofundada sobre o caso, envolvendo o juiz Sebastián Casanello, responsável pelos casos relacionados à Operação Condor. A participação de militares brasileiros e argentinos no sequestro e assassinato do pianista não pode ser descartada, considerando o contexto da época.
