Gostaria de receber os textos desta coluna diretamente no seu e-mail? Inscreva-se na newsletter Ligando os pontos, que é enviada todas as quintas-feiras. Para garantir seu recebimento das próximas edições, registre-se aqui.
Recentemente, tive a oportunidade de assistir a uma peça teatral em São Paulo que me impactou profundamente. Intitulada Mi Madre y El Diñero, a obra é do dramaturgo, ator e diretor mexicano Anacarsis Ramos e sua companhia Pornotráfico. A apresentação faz parte do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas Mirada e retrata com intensidade as dificuldades enfrentadas por uma mulher que, após seis décadas de trabalho árduo, ainda se vê em situações financeiras complicadas.
A protagonista da história é Josefina Orlaneta, mãe do autor. Desde muito jovem, aos cinco anos, ela começou a trabalhar vendendo lanches nas ruas e ao longo de sua vida acumulou experiências em mais de 40 ofícios diferentes. O espetáculo, que dura cerca de uma hora e meia, é uma tragicomédia que nos aproxima da figura de Josefina. De fato, ela está presente no palco atuando ao lado do filho. Com muito bom humor, ela compartilha que seu último papel é como atriz!
Integrando o gênero da autoficção, essa peça consegue transmitir de forma clara o contexto econômico em que vive uma trabalhadora empobrecida na transição entre os séculos XX e XXI. O texto revela com precisão as desigualdades que marcaram a trajetória de vida de Josefina.
Por exemplo, no início dos anos 2000, quando finalmente abre um pequeno mercado em busca de estabilidade financeira, essa conquista rapidamente se desfaz com a chegada das lojas Oxxo, uma rede mexicana que tem conquistado espaço em São Paulo e ameaçado pequenos empreendimentos.
O próprio Anacarsis expressa um discurso tocante durante as cenas em que contracena com sua mãe. Ele afirma (mais ou menos): se ao atingir os 66 anos ainda não possui dinheiro suficiente, Josefina não deve se enxergar como uma fracassada, mas sim como uma vítima do sistema econômico vigente. O autor revela que decidiu criar a peça para proporcionar à sua mãe a chance de viajar pelos festivais internacionais de teatro e quem sabe obter algum retorno financeiro. Diante do sucesso junto ao público, espero sinceramente que estejam colhendo bons frutos; todos nós terminamos aplaudindo de pé.
Mas por que abordar uma peça teatral em uma coluna sobre meio ambiente? A resposta surge ao final da apresentação, quando o diretor confessa que embora tenha persuadido a mãe com promessas de lucro financeiro, seu verdadeiro objetivo era criticar um modelo econômico que marginaliza grande parte da população. Esse sistema mantém países e comunidades sempre à margem das oportunidades.
Conectando os pontos, fui tomado por inquietações sobre o cenário geográfico onde se desenrola tanto a peça quanto a vida da personagem principal. Josefina e sua família passaram boa parte da vida em Campeche, um dos estados mais empobrecidos e violentos do México. As cidades dessa região costeira do Golfo carecem do glamour dos destinos turísticos vizinhos como Playa del Carmen e Cancun, famosos pela Riviera Maia e seus luxuosos resorts à beira-mar.
Nos anos 70, Campeche foi palco da descoberta do maior campo petrolífero offshore do México. Essa revelação transformou radicalmente a economia nacional, diminuindo sua dependência rural e colocando o país entre os principais exportadores mundiais de petróleo. Na época da descoberta, esse campo era considerado a segunda maior reserva de hidrocarbonetos globalmente, apenas atrás das reservas sauditas. Esse acontecimento fortaleceu a empresa estatal Pemex e atraiu gigantes do setor como Chevron e ExxonMobil.
A ironia é evidente: o primeiro poço explorado recebeu o nome de Cantarell em homenagem ao pescador que avistou uma mancha negra no mar onde estava situada uma sonda da Pemex. Entretanto, essa homenagem teve pouco efeito prático na vida do pescador; assim como muitos outros profissionais da pesca local, ele acabou morrendo na pobreza após a atividade petrolífera devastar suas fontes de sustento.
O Brasil também vivenciou sua própria “mina de ouro” há cerca de duas décadas com a exploração do Pré-Sal pela Petrobras. Os royalties gerados beneficiaram diversas cidades e estados brasileiros sendo o Rio de Janeiro o principal favorecido. Isso levanta uma reflexão: quantas Josefinas existem no Rio hoje que ainda não tiveram acesso aos benefícios financeiros advindos da exploração petrolífera? Mulheres esforçando-se em empregos mal remunerados para sustentar suas famílias.
Atualmente vemos um enredo semelhante se desenrolar na foz do rio Amazonas. Uma corrida pelas riquezas supostamente provenientes da exploração offshore já altera as dinâmicas sociais em Oiapoque, cidade mais setentrional do Brasil onde serão instaladas bases para extração desse “ouro negro”. Reportagens indicam um aumento populacional significativo gerando pressão sobre serviços públicos além de invasões territoriais e desmatamento para criação de novos assentamentos.
Poderia elaborar um espetáculo teatral listando todos os projetos brasileiros voltados para “desenvolvimento” que resultaram apenas em destruição e miséria; porém isso poderia soar enfadonho ou até mesmo deprimente. Deixo o teatro para Anacarsis enquanto me inspiro na sua obra para levantar esta questão: qual será o futuro econômico da costa amazônica caso ocorram vazamentos semelhantes aos registrados no México durante a exploração petrolífera? Vale lembrar que nessa região encontra-se uma das maiores atividades pesqueiras do Brasil.
Na minha coluna inaugural discorri sobre a maldição dos recursos naturais presente nos países ricos em petróleo e minérios. Há riqueza abundante enquanto grande parte da população vive na pobreza extrema; crianças são forçadas a trabalhar desde cedo como ocorreu com Josefina. Fiquei tocado ao ouvir dela que sua primeira lembrança remonta ao período em que já trabalhava nas ruas quando criança.
Daqui 60 anos estaremos contando as histórias das Josefinas brasileiras que atualmente não veem benefícios desse modelo desenvolvimentista voltado apenas aos verdadeiros detentores da riqueza?
