Recentemente, o rio Tietê, que atravessa a cidade de São Paulo, transbordou, resultando em uma vazão que ultrapassou duas vezes o limite habitual. Esse fenômeno provocou alagamentos tanto na metrópole quanto em regiões do interior paulista.
No Jardim Pantanal, um bairro com histórico de enchentes causadas pelo Tietê, os residentes ficaram alarmados com a força e rapidez das águas que invadiram a área durante a madrugada. O morador e jornalista Rafael Tavares, que vive no local desde 1994, descreveu o cenário: “A chuva não parava; foi incessante e intensa. O rio começou a transbordar lentamente, mas depois veio uma pressão das águas por volta das 6 da manhã, com uma força avassaladora. Parecia uma cachoeira; quem estava nas ruas precisava se segurar para não ser arrastado. Foi um verdadeiro desespero para retirar os carros e os móveis”, relata.
Embora os alagamentos sejam um problema recorrente na capital paulista, sua frequência tem aumentado em razão das alterações climáticas e da falta de adaptações urbanas adequadas. “É a primeira vez que isso ocorre em setembro. Geralmente, as enchentes acontecem no final de dezembro até fevereiro, raramente em março. Setembro é inédito”, enfatiza Tavares.
Apesar da gravidade da situação, foi constatado que o plano de ação climática da cidade possui diretrizes pouco específicas sobre como o governo deve proteger seus cidadãos. O documento tem sido criticado por ser quase uma cópia do plano de Salvador, na Bahia.
A análise revelou que ambos os planos foram desenvolvidos pelas mesmas instituições e profissionais envolvidos, incluindo a C40 – uma rede global de cidades comprometidas com a redução das emissões de gases do efeito estufa –, além da consultoria WayCarbon e da organização internacional ICLEI. Essas iniciativas são elaboradas com base em métricas financeiras voltadas para agentes externos e não priorizam as necessidades locais.
Essas considerações foram feitas pelo professor Paulo Zangalli, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que lidera o Grupo de Pesquisa Colapso – Natureza e Sociedade e também faz parte do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Climatologia. Ele investiga como as práticas climáticas se entrelaçam com questões de desigualdade social, como especulação imobiliária e gentrificação urbana.
Zangalli observou que as diretrizes do plano de Salvador são idênticas às do plano paulista. “Ambos apenas preveem reformas em edifícios antigos como estratégia para mitigar vulnerabilidades urbanas. Essa abordagem não é problemática em si; poderia ser benéfica se focada em recuperar prédios abandonados ou inadimplentes para promover moradia popular fora das áreas de risco”, esclarece ele.
O pesquisador participou do Plano de Mitigação e Adaptação das Mudanças Climáticas em Salvador, cuja versão final foi publicada em novembro de 2020. Ele destacou a falta de envolvimento efetivo da sociedade nas discussões sobre o plano: “As reuniões eram realizadas online com microfones desligados; na prática, éramos utilizados apenas para validar documentos criados por um consórcio externo.”
Para Zangalli, o documento demonstra uma relutância em implementar mudanças estruturais significativas. A adaptação – que poderia ter um impacto real na população – foi tratada superficialmente e carece de financiamento seguro, dependendo apenas do mercado financeiro.
A Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-estar e Proteção Animal (SECIS) foi questionada sobre essas críticas ao processo de elaboração do PMAMC. Em resposta via e-mail, a assessoria afirmou que o plano foi criado com base em metodologias reconhecidas internacionalmente e ressaltou a participação social por meio de oficinas e audiências públicas.
A Prefeitura de São Paulo também foi indagada sobre suas ações para enfrentar os alagamentos no Jardim Pantanal sob a atual administração. Através da Assessoria de Imprensa, informou que está investindo R$ 59,8 milhões em obras voltadas à drenagem e contenção no Rio Tietê. Além disso, afirmaram que o Plano de Ação Climática revisado para 2025 estipula 36 metas específicas voltadas à adaptação climática.
Confira abaixo alguns trechos da entrevista realizada com Paulo Zangalli:
Qual é o contexto por trás da criação do plano em Salvador?
O Plano de Ação Climática foi desenvolvido dentro do escopo da C40 [rede global dedicada ao clima], onde Salvador se comprometeu a neutralizar suas emissões até 2050 durante a assinatura do Acordo de Paris. Para atingir essa meta ambiciosa foram necessários planos específicos.
O processo teve início em 2015 com o Plano de Resiliência Urbana e posteriormente culminou no Plano Climático. Contou com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Fundação Rockefeller, além da articulação da GIZ (agência alemã), que contratou as consultorias WayCarbon e ICLEI.
Esse plano é dividido em quatro pilares: Inclusão Social, Verde-Azul, Resiliência e Baixo Carbono. Contudo, parece reproduzir uma série de metas padronizadas sem considerar as particularidades locais; é similar ao trabalho realizado na elaboração dos planos para outras cidades brasileiras como Porto Alegre.
Por qual motivo isso ocorre?
O plano falha ao ignorar as especificidades climáticas locais devido à sua estrutura genérica: dentre as 56 ações planejadas para combater problemas climáticos como alagamentos e deslizamentos, apenas 16 abordam esses temas diretamente sem considerar intervenções estruturais necessárias para preparar a cidade para futuras chuvas intensas.
Mesmo apresentando diagnósticos detalhados sobre riscos climáticos nas áreas vulneráveis à inundação, as soluções propostas priorizam mais capacitações individuais do que medidas preventivas concretas.
Por exemplo: ao abordar o calor extremo como um problema secundário — algo mencionado pela Defesa Civil — percebe-se que ações efetivas contra esse fenômeno são escassas no plano atual.
Como você define essa desconexão entre mitigação e adaptação?
A ambição do plano é focada na neutralização das emissões até 2050 — uma exigência da C40 — enquanto as medidas adaptativas são essenciais diante dos desafios reais enfrentados pela cidade relacionados a alagamentos e deslizamentos. O calor extremo também emerge como preocupação crescente entre os cidadãos.
Essa discrepância resulta na priorização das metas financeiras sobre soluções adaptativas necessárias à realidade urbana: enquanto mitigação se concentra nos gases poluentes emitidos na atmosfera; adaptação é sobre reestruturar nosso espaço urbano apropriadamente.
Os princípios relacionados ao uso do solo nos dois planos são bastante semelhantes; ambos visam reduzir vulnerabilidades urbanas sem abordar questões socioeconômicas fundamentais presentes nas áreas carentes onde predominam habitações informais.
Em ambas as estratégias urbanas prevalece somente a ideia do retrofit dos prédios antigos como forma principal de intervenção urbana — embora isso poderia funcionar se alinhado à recuperação habitacional adequada nos centros urbanos deteriorados;
Entretanto, essa abordagem frequentemente resulta na expulsão forçada dos moradores locais devido à especulação imobiliária relacionada às reformas energéticas promovidas pelo clima.
Quais são as implicações dessa negligência pela adaptação?
Primeiramente porque envolve gastos significativos; segundo porque não traz retorno financeiro imediato esperado pelos investidores privados envolvidos nas iniciativas urbanas atuais. Em muitos casos o financiamento destinado às adaptações ainda não está garantido adequadamente sem parcerias internacionais firmes ajudando neste sentido.
Você esteve envolvido na elaboração desse planejamento? Quais expectativas tinha inicialmente? Havia algo que te decepcionou?
Desde minha participação no Painel Salvador para Mudança Climática discutimos amplamente sobre quem seriam os responsáveis financeiros desse planejamento visando integrar especialistas locais aos movimentos sociais nesse processo colaborativo — porém acabamos sendo utilizados apenas como validação superficial dos documentos já definidos por grupos externos ao contexto local.”
Constatei antecipadamente essa dinâmica perversa; muitos colegas sentiram desilusão ao perceberem que seu conhecimento não era considerado adequadamente nem contribuíam realmente para formulação crítica dos conteúdos desenvolvidos através deste consórcio.”
Diante disso podemos concluir que muitos desses planos brasileiros seguem um padrão repetitivo?
Sim! Os planos frequentemente têm autoria comum resultando nas mesmas diretrizes gerais aplicáveis conforme cada território específico mas seguindo padrões similares propostos anteriormente.”
Você mencionou anteriormente que algumas metas já foram atingidas dentro desses planos?
Sim! Entre elas estão aquelas relacionadas à redução das emissões gases efeito estufa estabelecidas inicialmente como meta central prevista dentro desse contexto; sendo inclusive já alcançada uma diminuição significativa neste aspecto.”
E qual seria então um modelo ideal para lidar com estas questões urbanas?
Um modelo ideal deve surgir diretamente das necessidades emergentes dos cidadãos incorporando tecnologias existentes dentro desses territórios afetados pelas mudanças climáticas cotidianamente vivenciadas pela população afetada direta ou indiretamente!”
Sobretudo devem existir diálogos constantes entre academia , sociedade civil organizada visando fortalecer engajamento colaborativo oferecendo soluções integradas às realidades locais específicas ! p >
