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Os fenômenos climáticos que presenciamos anualmente no Brasil, como os recentes na região da zona da mata em Minas Gerais, são consequências não apenas das mudanças climáticas no planeta, mas também da maneira como as cidades estão se expandindo em direção a áreas de risco.
Um estudo recente divulgado pelo MapBiomas revela que, no processo já conhecido de crescimento desordenado de muitas cidades, especialmente nas regiões metropolitanas, a expansão tem sido maior em direção a áreas com alta declividade ou próximas a corpos d’água, aumentando assim o risco de deslizamentos e enchentes.
O MapBiomas, uma iniciativa que envolve várias instituições, como universidades, ONGs e empresas de tecnologia, monitora as mudanças na cobertura e no uso da terra no Brasil desde 1985. A última avaliação aponta que, nas últimas quatro décadas, enquanto as áreas urbanas cresceram 2,5 vezes em geral, a expansão sobre áreas de alta declividade – ou seja, as mais inclinadas, como morros – aumentou mais de 3 vezes no mesmo período.
O aumento da exposição a riscos ambientais também é evidente quando se analisa a expansão das cidades em relação a cursos d’água. O levantamento considera a diferença vertical entre a superfície do terreno urbanizado e a linha de drenagem natural mais próxima, como um rio, por exemplo.
Segundo o MapBiomas, a ocupação de locais com uma diferença de até três metros – tornando-os mais vulneráveis a enchentes, alagamentos e inundações – aumentou 145% nos últimos 40 anos, passando de 493 mil hectares em 1985 para 1,2 milhão de hectares em 2024.
As áreas de favelas também cresceram mais (2,75 vezes) do que o processo geral de urbanização (2,5 vezes). Essa expansão também está ocorrendo em áreas de risco. Houve um aumento de 150% na área de favelas em terrenos com alta declividade e de 200% em áreas a menos de 3 metros de distância vertical de áreas de drenagem.
Esse estudo ajuda a compreender melhor o que temos observado na prática em relação aos desastres ambientais nos últimos anos e está alinhado com os alertas de risco emitidos pelo Cemaden, como mencionado em uma coluna anterior.
Por exemplo, Minas Gerais, onde mais de 70 pessoas faleceram devido às chuvas extremas da semana passada, é o estado com a maior área urbanizada em alta declividade no Brasil. Entre 1985 e 2024, essa área triplicou. Juiz de Fora, uma das cidades mais afetadas pelo temporal, é a terceira cidade com maior área de urbanização em terrenos com mais de 30% de inclinação no país. Apenas atrás de Rio de Janeiro e São Paulo.
Já Rio Grande do Sul e Santa Catarina, estados que também enfrentaram problemas com as chuvas nos últimos anos, foram os que tiveram maior crescimento de urbanização em áreas de alta declividade proporcionalmente nas últimas quatro décadas.
Cidades frequentemente atingidas por alagamentos, como Rio de Janeiro e São Paulo, ocupam as primeiras posições no ranking dos municípios com maior área urbanizada em terrenos com até três metros de altura de corpos d’água. O Rio chama atenção, em particular, por ter 43% da área do município nessas condições.
“O caso do Rio de Janeiro reflete o padrão brasileiro: os dados sugerem que a expansão das favelas tem sido significativa em áreas topograficamente e hidrologicamente sensíveis, com um aumento expressivo tanto em encostas quanto em áreas muito próximas à drenagem”, comentou Julio Pedrassoli, um dos coordenadores do mapeamento de Áreas Urbanizadas do MapBiomas.
Esses dados destacam como o planejamento urbano não está alinhado com a emergência climática e como não há uma orientação clara dos governos locais para tornar cidades e estados mais resilientes e proteger suas populações, visto que os eventos extremos estão se tornando mais frequentes no Brasil.
De acordo com um relatório do Cemaden divulgado na semana passada, houve 7.539 desastres climáticos entre 2020 e 2023, um aumento de 222,8% em comparação com as 2.335 ocorrências na década de 1990. A proporção de municípios afetados aumentou de 27% para 83%.
Um ponto importante que destaquei anteriormente e que vale a pena reforçar é que uma chuva intensa se torna um desastre quando atinge uma região vulnerável, onde as populações vivem em encostas ou próximas a rios.
Esses são pontos que todos os eleitores devem considerar ao decidir seu voto. Em 2024, cobrimos todas as eleições municipais aqui na Agência Pública sob a ótica da emergência climática. Naquela época, publicamos uma matéria mostrando que mais de 1.600 municípios no Brasil – um em cada três, onde reside metade da população – enfrentam um alto ou muito alto risco de desastres relacionados a chuvas, como deslizamentos de terra, inundações e alagamentos.
Isso foi em 2024. Novos prefeitos foram eleitos desde então. Muitos candidatos às capitais afirmaram para nossa equipe que a questão climática seria prioridade. Desafio o leitor a citar um exemplo bem-sucedido de implementação de políticas para proteger as cidades dessas tragédias. A adaptação às mudanças climáticas ainda não se concretizou, mas é crucial. Quanto mais cedo agirmos, menos custoso será e mais vidas serão salvas.
