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Cientistas já têm conhecimento há algum tempo sobre o risco representado pela combinação de desmatamento e alterações climáticas na Amazônia, que pode levar a floresta a atingir um ponto de não retorno, comprometendo sua funcionalidade e reduzindo significativamente sua capacidade de gerar chuvas. Um recente estudo, utilizando modelos climáticos aprimorados, avaliou com mais precisão as condições necessárias para que isso ocorra. Os resultados indicam que esse limite está alarmantemente próximo.
As conclusões da pesquisa levantam preocupações tanto imediatas quanto futuras. A primeira se relaciona à iminente ocorrência de um novo El Niño, esperado para surgir a partir do meio do ano. Esse fenômeno tende a deixar a floresta mais seca e mais vulnerável a incêndios. A segunda preocupação está relacionada ao cenário político: um governo que diminua o controle sobre o desmatamento poderia permitir que a Amazônia fosse desmatada novamente, como aconteceu durante os anos Bolsonaro, o que aceleraria esses riscos.
Esse é um aviso claro de que é imprescindível interromper o desmatamento e evitar que o aquecimento global ultrapasse os 1,5 °C.
A nova pesquisa, divulgada na quarta-feira, 6 de maio, na revista Nature, utilizou modelagem matemática para calcular que um aumento da temperatura global entre 3,7 °C e 4 °C poderia colocar cerca de um terço da floresta em risco de instabilidade. No entanto, ao incluir os efeitos do desmatamento nas projeções, a situação se torna ainda mais complexa.
Um nível de desmatamento superior a 22% da área do bioma combinado com um aumento da temperatura global entre 1,5 °C e 1,9 °C pode resultar em uma transição quase sistêmica da floresta amazônica. O estudo estima que essa mudança afetará entre 62% e 77% da área florestal. O trabalho menciona “efeitos espaciais indiretos resultantes do aumento da intensidade da seca, levando a cascatas autossustentáveis em escalas variando de centenas a milhares de quilômetros”.
Atualmente acredita-se que a Amazônia já tenha perdido entre 17% e 18% de sua cobertura original desde o início do desmatamento na década de 1970, quando a ocupação da região foi incentivada pela ditadura militar. Chegar aos 22% não é algo imediato – espera-se. Isso significa uma perda aproximada de 270 mil km2, um número considerável. Para ilustrar: com os mecanismos de controle ativos, o total desmatado no ano passado na Amazônia brasileira foi de 5,7 mil km2.
No entanto, em 2021, durante o governo Bolsonaro, essa cifra superou os 13 mil km2. Uma perda anual dessa magnitude poderia levar a Amazônia ao ponto de não retorno em pouco mais de duas décadas.
Isto porque o aquecimento global deve exceder os 1,5 °C antes mesmo desse período. Essa marca foi atingida em 2024, considerado até então o ano mais quente já registrado; contudo, essa temperatura não se mantém continuamente. O ano passado apresentou temperaturas ligeiramente mais amenas como exemplo. No entanto, muitos cientistas acreditam ser bastante provável que esse novo cenário se concretize até 2030.
Diante desse nível de aquecimento, preservar a floresta torna-se essencial. “A mensagem clara é que não podemos chegar aos 22%”, afirmou Bernardo Flores, ecólogo brasileiro do Instituto Juruá em Manaus e coautor do estudo.
Liderada por Nico Wunderling do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), a pesquisa revela que o desmatamento diminui significativamente a resiliência da Amazônia em comparação com as previsões anteriores ao secar a atmosfera e enfraquecer sua capacidade natural de gerar chuvas. “Até mesmo um leve aumento na temperatura pode provocar impactos em cascata em vastas áreas da floresta”, declarou Wunderling à imprensa.
“Historicamente, a floresta amazônica tem exercido um papel crucial na estabilização do sistema terrestre como sumidouro de carbono e reguladora do ciclo hídrico além de ser lar da biodiversidade terrestre mais rica do planeta. O contínuo desmatamento está comprometendo essa estabilidade e empurrando a floresta cada vez mais para perto de um ponto crítico. Esse colapso não seria apenas devastador para a região; suas consequências poderiam ser sentidas por todo o mundo“, comentou Johan Rockström, diretor do PIK e coautor do estudo.
Rockström tem liderado diversas investigações sobre pontos críticos em outros sistemas planetários e se tornou uma voz ativa pedindo ações mais enérgicas para conter o aquecimento global e evitar outras formas destrutivas como o desmatamento. No último ano esteve presente na COP30 junto ao pesquisador brasileiro Carlos Nobre – pioneiro ao alertar sobre os riscos enfrentados pela Amazônia – solicitando compromissos mais audaciosos dos países para abandonar combustíveis fósseis. Nessa ocasião ele compartilhou suas preocupações acerca da fragilidade da Amazônia.
“A bacia amazônica mantém seu estado estável devido a uma retroalimentação única: sua diversidade ecológica compõe um sistema multi-camadas com raízes profundas que geram umidade e bombeiam água”, disse ele. “Ela produz tanta evaporação que consegue gerar sua própria chuva. Essa retroalimentação é uma máquina recicladora de umidade”.
“Contudo, à medida que aumentamos as temperaturas e promovemos o desmatamento – quebrando esse dossel incrível – a atmosfera se torna mais ‘sedenta’ absorvendo ainda mais umidade. Como resultado as plantas perdem capacidade para manter essa umidade ou bombear água adequadamente. Em determinado momento específico essa retroalimentação cessa completamente; embora não haja colapso imediato ela inicia uma trajetória rumo à degradação similar à savana”, explicou.
A pesquisa publicada na Nature inova ao ampliar nosso entendimento sobre a interação entre desmatamento e aquecimento global enquanto aumenta nossa confiança nas condições que levam à inflexão dessa dinâmica. No entanto Flores enfatiza que nem todas as ameaças atuais à floresta são consideradas no estudo; especialmente os impactos oriundos da degradação florestal.
Quando falamos sobre desmatamento os pesquisadores se referem à remoção total da vegetação – quando o solo fica exposto sendo substituído por outras atividades como pastagens ou agricultura.A floresta pode sofrer danos também por meio da exploração madeireira seletiva ou queimadas intensas.
Dado ser uma área predominantemente úmida quando incêndios atingem as florestas intactas eles podem passar sem destruir tudo; depende das condições das árvores presentes nesse local. Se imaginarmos que metade das árvores permaneçam após essas queimadas, sem novos incêndios ou desmatamentos adicionais há possibilidade de recuperação parcial; entretanto haverá uma degradação significativa.
A questão é que essa degradação tem aumentado devido ao calor intenso resultante do aquecimento global; isso faz com que ocorram queimadas com maior frequência tornando as florestas ainda mais secas – criando assim uma relação problemática e autoalimentadora.
“Ainda não temos clareza sobre como exatamente essa degradação afeta o ciclo hídrico”, enfatiza Flores. “Se tivermos uma parte intacta da floresta mas com metade das árvores perdidas devido ao fogo sabemos que isso causa impacto local – tornando-a mais seca e vulnerável ao fogo novamente. Contudo ainda desconhecemos como isso influencia nos fluxos atmosféricos”, reflete ele.
“O modelo atual considera cerca de 17% do bioma já desmatado; caso cheguemos aos 22%, poderíamos entrar numa zona crítica onde não há retorno possível para a Amazônia”, pondera Flores.
Ele recorda também das extensas áreas queimadas em 2024 durante uma seca severa provocada pelo El Niño; segundo análises realizadas pelo MapBiomas aproximadamente 67 mil km2 foram consumidos pelas chamas na Amazônia – valor dez vezes superior ao registrado para desmatamentos nesse mesmo ano; trata-se de um recorde histórico onde pela primeira vez ardeu mais área florestal do que pastagem disponível no bioma. A expectativa é preocupante com previsão para novo El Niño neste ano.
Diversos modelos indicam potencialmente forte intensidade deste fenômeno climático denominado “super El Niño”; contudo tal prognóstico ainda precisa ser confirmado pela Organização Meteorológica Mundial conforme seu relatório divulgado no final abril deste ano. Já os dados fornecidos pelo Centro Europeu para Previsões Meteorológicas mostraram aumento nas chances deste evento ser considerado o mais intenso dos últimos cem anos.
Independentemente disso mesmo um El Niño “normal” pode causar estragos significativos pois as florestas amazonenses ainda estão se recuperando dos danos anteriores – assunto discutido recentemente no programa Bom Dia, Fim do Mundo desta semana; sugerimos ouvir!
“Se este El Niño realmente corresponder às expectativas poderemos enfrentar incêndios devastadores,” alerta Flores. Para os pesquisadores é imprescindível não apenas evitar novos danos mas também restaurar aquilo já perdido.
“Além das medidas contra o desmatamento é vital controlar também as degradações existentes – lacuna ainda presente nos estudos – além disso precisamos acelerar urgentemente processos restaurativos porque levará muito tempo até essas florestas recuperarem sua capacidade original de devolver água à atmosfera”, conclui Flores.
