O governo federal está buscando valorizar o cinema brasileiro, especialmente após o sucesso do filme “Ainda Estou Aqui” no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. Enquanto as publicações do Canal Gov, veículo da Empresa Brasil de Comunicação, comemoravam as conquistas da obra, a estratégia de investimentos em propaganda oficial do Governo Federal mostrou uma queda significativa, indo na contramão das premiações. Dados da Secretaria de Comunicação Social da Presidência revelam que o governo tem investido mais em plataformas de streaming do que na mídia cinema, que perdeu espaço como veículo de propagandas oficiais.
Por que isso importa?
- Investimentos em propaganda oficial refletem a percepção do governo sobre a importância de cada mídia e revelam o apoio dado a cada setor.
Os investimentos em publicidade oficial do Governo Federal em cinemas caíram de R$ 5.746.807,36 em 2024 para R$ 2.813.263,68 em 2025, enquanto os aportes em plataformas de streaming aumentaram de R$ 6,3 milhões para R$ 17,9 milhões no mesmo período. Esse cenário destaca a importância da publicidade governamental na circulação de recursos no setor audiovisual, influenciando a economia dos espaços de exibição.
Para Humberto Neiva, coordenador do curso de cinema da FAAP, a discussão não deve ser sobre tecnologias, mas sim sobre um equilíbrio na política pública de comunicação. Ele destaca a relevância tanto do streaming quanto do cinema tradicional como espaços de visibilidade e interação entre o público e as obras audiovisuais.
O crescimento do streaming durante a pandemia é parte de uma transformação global, mas as plataformas digitais não substituem a experiência cinematográfica. Neiva ressalta a importância do investimento no cinema para manter a presença desse meio e recuperar o público.
O especialista Maurício Souto, da UFRB, destaca a contradição nas políticas culturais brasileiras, que celebram o sucesso do cinema nacional no exterior, mas nem sempre investem de forma consistente no setor. Ele menciona diferentes formas de financiamento público, como a Lei Rouanet, que tem apresentado crescimento, demonstrando incentivo ao setor audiovisual.
Souto acredita que a publicidade institucional poderia fortalecer o cinema nacional, mas quando o investimento em streaming supera o do cinema, o efeito simbólico é desfavorecer o cinema no momento em que poderia se beneficiar da atenção internacional. Ele destaca a importância de transformar o sucesso do cinema brasileiro em investimentos efetivos no setor.
Procurada pela Agência Pública, a Secom afirma que a distribuição dos investimentos em publicidade segue critérios técnicos e a legislação, acompanhando as mudanças no comportamento do público em direção aos ambientes digitais.
